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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Praticas contrasxuais de um Corpo-flor

Meu corpo é uma flor que há muito tempo tem sofrido tentativas de categorizações, que falham com a mesma rapidez em que eu mudo de forma e desejo. Eu tenho um corpo-flor selvagem, movido por instintos anti-racistas e contrassexuais. Minha pele é preta e sobre ela crescem flores. E é através delas que sinto prazer. Eu não tenho vagina muito menos pênis. Eu sinto orgasmos quando meus dedos ou galhos de arvores penetram as flores que crescem na minha barriga, nos meus braços, nos meus ombros, nas minhas pernas. Eu gozo quando minha lingua toca qualquer lugar da minha pele. Meu corpo é negro mas não tem raça. É corpo mas não tem gênero. É desejo mas não tem sexualidade. Minha pele não é suja, não é feia, não fede. Ela é um órgão incompreendido que nunca desejou essas explicações vindas do norte. Meu corpo é deslocamento de negritude. É ruptura de heterocisnormatividade. Meu corpo-flor é bárbaro. Minha pele é subversão de um projeto de animalidade.

Registro: Rodrigo Jesus
Edição: Castiel Vitorino e Rodrigo Jesus
Figurino: Castiel Vitorino




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ode às bixas-preta (performance)









ODE ÀS BIXAS-PRETAS

Eu tenho um corpo. Eu tenho uma pele. Eu tenho um corpo coberto por uma pele preta-bixa. Eu tenho uma pele que está cansada de ser reconhecida apenas como preta-bixa.

Minha pele biológica foi inferiorizada pelas ciências e endemonizada por religiões. Por ser negra, foi ignorada pelas Artes com a desculpa racista de que por ser preto, meu corpo não combinava com suas composições. Mas então eu pergunto: para que serviu seus estudos de cor? Por ser bixa, foi patologizada por medicinas e psicologias. Ai eu questiono: a quem serve sua reforma psiquiátrica?

Por ser preta e bixa minha pele, que fazia parte de um corpo coletivo foi arrancada desse e de outros grupos. Com justificativas que se alternavam entre o racismo e a homofobia. "Você é preta demais!". "Você é bixa demais!'. E sabe, é exatamente isso mesmo que eu sou. Preta e bixa em sua máxima potência!

Demorei muito tempo pra perceber que minha pele não se encontra aprisionada em um não lugar. Mas, agora eu sei. Eu sinto, eu existo, eu ocupo, eu preencho, eu materializo uma “utopia”.

Minha pele preta-bixa não é desencontro e sim colisão de raça gênero e sexualidade.

Minha pele preta-bixa é mais que uma conversa de opressões. Ela é criadora de realidades ainda vistas como imperfeitas. Mas, de imperfeita ela não tem nada!

Minha pele é esperta, pilantra, ladra e terrorista. Ela desterritorializa seu corpo e o recoloca em um altar, ao lado de Madame Satã e Mc Lin da Quebrada. Ou melhor. Minha pele bombardeira todos esses altares, com a ajuda de Satã e Lin, com bombas carregadas de desejos descolonizados. Desejos de bixa preta latina suburbana e perigosa!

Eu tenho uma pele que é preta e bixa. Essa pele também é composta por ítens indumentários. Saia, vestido, calça, calcinha, batom, meia arrastão, terno. Ela gosta de chupar e ser chupada. Tocar e ser tocada. Gosta de amar e ser amada, porra! Ela chora. Ela é fraca. Ela elimina. Ela bate. Ela é frágil. Ela é poderosa.

Minha pele preta-bixa é resistência. Ela é insistência. Ela é indispliscência.

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Texto escrito por Castiel Vitorino, e lido no fim da performance “Ode às bixa-pretas” realizada na mesa de debate sobre Estética Negra nas artes. Mesa esta que fez parte da I Marcha do Orgulho Crespo do ES

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Pele de Intensidades

Esta pele foi retirada de um corpo que não precisa mais dela. Um corpo que deixou de ser carente. Que não mais clama por um prazer que preencha sua falta infinita. 

Esta pele pertenceu a um corpo organizado pela química e pela biologia, que estabeleceram uma hierarquia de poder entre seus órgãos que, outra, eram apenas órgãos. Um corpo castrado. Docilizado. Capturado. Racializado. Higienizado. Um corpo sintetizado ao que decidiram chamar de órgãos sexuais. Esta pele pertenceu a um corpo que decidiu se desorganizar. que revoltou-se contra as funcionalidades despotencializantes dadas aos seus órgãos. Um corpo que, ao perceber que estava sendo transformado em uma maquina produção capitalística, resolveu banhar-se de seu próprio sangue e, em meio a dor, medo e desejo, se desconfigurou. Produziu curto-circuito neste sistema criado pelas ciências.  Este corpo destruiu suas as formas. Cortou as ligações existentes entre sua materialidade e as almas criadas pelas religiões e pelas psicologias. Cansou de ser submisso. Esta pele pertenceu a um corpo que deu adeus aos seus órgãos, transformando-se em um Corpo sem Senhas. Um Corpo sem Nó. Este corpo decidiu encontrar a resposta para a pergunta: eu precioso deste corpo? 

E desde então tem circulado por territórios instituídos afim de torná-los instituintes. É um corpo que está se produzindo em um campo de imanência. Um corpo que encontra-se em uma autopoiese com a vida. Permitindo-se afetar e ser afetado. Transformado-se em um corpo de intensidade. 

Esta pele pertenceu a um corpo atualmente livre de significações ou representações. Um corpo que não se traduz. Um corpo que criou para si novas esculturas de desejos. Novos arranjos intensivos. Um corpo que atualmente enxerga com os ouvidos e ouve com os pés. Se desloca com suas mãos. E fala através dos olhos. Esta pele não foi retirada de um corpo que não precisa mais dela. Na verdade, foi ela quem entendeu que não precisa mais dele. De um corpo. 

[obra finalizada na data 18 de Janeiro de 2017]







Ultimas obras







Cartografando minha estratégia poética. 2

Uma foto publicada por Castiel (@gartthion) em



Eu não quero ter a autoridade de dizer quando minha obra está ou não finalizada. Assim como não quero que ninguém tenha esse poder sobre minha produção. Para minhas obras, desejo metamorfoses. Que seus processos estejam sempre em movimento e nunca estacionados. 

Então, uso materiais orgânicos, produtos perecíveis , justamente para alcançar este meu objetivo de fazer com que as obras esteja sempre mudando, borbulhando, transformando-se. Transformações que não serão conduzidas apenas por mim. Muito menos somente por seres humanos. Existem outros elementos, outros fatores que iram influenciar suas metamorfoses. Fatores como temperatura e umidade do espaço onde ela ficará. E também a exposição ou não ao sol. 

Farinha de trigo, água, flores naturais, vinagre, cola branca, gesso: esses são alguns materiais que tenho usado utilmente. Recentemente descobri como fazer uma massa entre cola branca, água, farinha de trigo e um pouco de vinagre, e é ela que venho usando em meus trabalhos. Ao longo de seu processo de secagem, ela pode ficar uma cor mais amarelada com pontinhos amarelo escuro, ou ficar mais clara, quase branca. Assim como, acredito que se ela estiver em um ambiente úmido, com o tempo poderá adquirir bolô. Existe também uma estratégia para secar as flores. Cada uma possui uma posição específica para ser posta para secagem, isso se eu quiser preservar sua forma e cor.

Eu uso esses materiais pois quero que o admirador e o comprador tenha uma nova relação com a arte. Uma relação que, o objetivo primeiro não é eterniza-la e sim se afetar por ela. Essa é a minha prioridade. Quero que quem tiver contato com estes objetos, queira cuidar deles. Estuda-los no campo do sensível. Investigar seus processos de degradação e conservação. Eu quero que minha pesquisa continue para além de mim. Quero ser um artista que inicia, e não que finaliza. E, não quero que ninguém tenha uma relação de posse com estas obras, e sim de companheirismo.