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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Atlântico negro


O que há de África em Brasil? O que há de Brasil em África? Águas. Águas atlânticas que em sua composição contém afetos e memórias, das travessias africanas em direção a este território que hoje nomeamos de Brasil. Este mar contém desejos sudaneses, bantos e brasileiros de ir e de voltar. Desejos bantos-brasileiros-sudaneses. Contém medo, incertezas, lágrimas de tristeza e de saudades. Este mar é reservatório de um passado que se atualiza cotidianamente em singularidades negras diaspóricas. O Atlântico é negro, e eu me produzo nele.

Sou essa água salgada, que sara feridas de corpos com peles subalternizadas. Sou esse mar poliglota, que grita segredos dos colonizadores, que escuta o clamor dos sequestrados, e que acolhe os negros desamparados; que reclamam da sede de ancestralidade. Meu corpo é transatlântico, intersecciono bairros, cidade, países e continentes. Minha etnia é diaspórica, sou uma banto-capixaba-brasileira. Sou negra, sou bixa, sou latina. Sou uma bixa-banto-brasileira. Meu corpo é aquático e fronteiriço, hábito a fronteira entre África e Brasil: o mar.

O mar sentiu o peso dos navios negreiros repletos de africanos sequestrados, roubados, raptados. E é neste mesmo mar atlântico onde, na terceira diáspora, criam-se negritudes emancipadas de traumas e desejos coloniais. O mar é a máxima expansão da água que nos compõe.

Todo negro precisa saber nadar, para compreender a diferença entre náufrago e mergulho.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

OUÇO O MAR

O que o mar tem a me dizer sobre as travessias africanas feitas em direção ao Brasil? Quantos litros de lágrimas de corpos negros misturaram-se à esta água salgada? Quero ouvir do mar sobre o peso dos navios negreiros, que se alterava sempre que um sequestrado africano era jogado em águas atlânticas. Também me interesso sobre o peso dos barcos repletos de negros refugiados; contemporâneos à mim. É  essa água que constitui meu corpo diaspórico negro-bixa. Mar, grita-me os silenciamentos, aqueles que ainda são produzidos por colonizadores. E diga-me, por favor, a melhor rota que me leva à ilhas de liberdade. 

FOTOGRAFIA: Rodrigo Jesus